6.10.2017

Unidade de Cuidados Continuados


A primeira unidade de cuidados continuados
Fruto do meu própio trabalho como arquitecto tive necessidade de investigar em particular das Unidades de Cuidados Continuados e em geral toda a história das unidades hospitalares modernas. Nesta pesquisa deparei-me com alguns factos pouco conhecidos dos arquitectos e pouco divulgados nos meios académicos.
Deste modo podemos dizer que alguns arquitectos estão claramente à frente do seu tempo e antecipam enormemente o devir histórico. O arquitecto Jacob Rechter é um destes exemplos e a primeira unidade de cuidados continuados localizada no no monte Carmelo em 1968 é prova disto mesmo.

O contexto social e os apoios estatais
Esta obra foi apelidada de Sanatório Mivtachim e possui mais de 7000 metros. Foi financiada de acordo com as políticas do estado social israelita dos anos 60 enquadradas na "zeitgeist" internacional. Era propriedade de um fundo de pensões do de uma organização laboral israelita. Esta unidade de cuidados continuados fazia assim parte da segurança social e permitia aos trabalhadores recuperarem de lesões com assistência médica num determinado período de convalescença. Mas o cuidado médico não era visto apenas como um cuidado hospitalar mas privilegiava profundamente a qualidade de vida e o conforto da estadia no período de doença.

A arquitectura dos cuidados continuados
Para além do carácter percursor do programa de cuidados continuados está o modo como a arquitectura torna sublime a arte de cuidar e centra o utente enquanto prioridade dos cuidados médicos.
Assim, todos os quartos são todos voltados para o mar mediterrâneo e os espaços comuns são colocados no rés do chão. O edifício é materializado em betão armado nos pilares e rés-do-chão. Na restante parte o edifício é rebocado como que levitando sobre o topo da encosta. O mais extraordinário é que se por um lado o arquitecto faz usos de materiais como o betão armado associados ao movimento conhecido como "Brutalismo", por outro lado mistura-o com o carácter mediterrâneo de uma aldeia branca ou a forma orgânica de um elemento natural. Para descrever esta obra, sublime é o minímo que nos pode ocorrer!
A chegada à unidade de cuidados continuados

No piso térreo os cuidados comuns

As zonas de lazer nos jardins da unidade

Os espaços de estar para receber visitas

As vistas esplendorosas sobre o mediterrâneo

A unidade de cuidados continuados no cimo da colina

As zonas de circulação em betão à vista

Os espaços de convívio




5.01.2017

Pancho Guedes - O arquiteto do Modernismo Português

Pancho Guedes é um arquitecto incontornável na história da arquitectura portuguesa. Lamentavelmente, e sobretudo por questões políticas, é frequentemente apagado e desvalorizado. Contudo a realidade dos factos é que pertenceu ao Team 10 fundamental na crítica ao C.I.AM. e na elaboração de propostas alternativas a um modernismo desprovido do contexto social económico e cultural em que se inseria. No team 10 encontra-se lado a lado e diga-se, bem acompanhado por nomes como  Aldo van Eyck, Alison and Peter Smithson, Georges Candilis, Coderch entre outros.
Nasce em 1925 e morre em 2015. A sua modernidade crítica e apurada é notável. Grande parte da sua obra é realizada em Maputo, sendo que a conturbada descolonização portuguesa impede o decurso do seu percurso arquitectónico.
Pancho Guedes tem uma concepção do modernismo como algo de humano mas que se enquadra no uso dos recursos contemporâneos mais eficientes, funcionais e adaptados aos recursos dos lugares. A sua perspectiva é a da fusão com todas as artes e daí resulta uma obra que inclui a escultura e a pintura como actividades paralelas.
O exemplo do Prédio Abreu Santos e Rocha em Maputo, construído em 1956 na praça dos Trabalhadores, é paradigmático desta abordagem. A sua arquitectura funde-se com a pintura ou escultura sendo artes praticamente indissociáveis. Ao mesmo tempo a eficiência energética da fachada brise soleil faria invejar qualquer arquitecto dos dias de hoje. As aberturas francas a sul (hemisfério sul) e controladas a norte mostram um conhecimento profundo da energia solar passiva. Ao mesmo tempo o edifício define magistralmente a praça dos trabalhadores contendo múltiplos programas que mostram a sua visão sobre a qualidade urbana que o modernismo deveria possuir.
Pancho Guedes foi assim sem dúvida um dos grandes mestres de um modernismo crítico global e da arquitectura portuguesa.


Fachada do Prédio Abreu Santos Rocha - Arq. Pancho Guedes

Prédio Abreu Santos Rocha - Arquitecto Pancho Guedes

Praça dos Trabalhadores - Maputo

Arquitecto Pancho Guedes -  Energia solar passiva avant-la-letre

Arquitecto Pancho Guedes - desenho de fachada com Brise soleil

Arquitecto Pancho Guedes - Pormenor de Brise soleil vertical

4.24.2016

Hotel dos Arquitectos Niemeyer e Lima


É muito provavelmente o Hotel em Portugal com o projecto de arquitectura mais detalhado e concebido não para ser a imagem de uma marca mas para se integrar num local e fazer desfrutar todos os que o percorrem.

Sim,  um hotel cuja qualidade essencial é a própria natureza do lugar e a arquitectura por si própria parece algo de impensável num tempo dominado pelo "branding" que torna tudo homogéneo.

O papel dos arquitectos ao desenhar o Hotel

O mais curioso neste Hotel é que este resultado extraordinário é concebido por dois arquitectos amigos de países diferentes. Um é o arquitecto Oscar Niemeyer do Brasil e o outro é Viana de Lina de Portugal. O primeiro é famoso internacionalmente e é convidado pela Família Barreto para realizar o projecto.
Concebe o estudo prévio à escala 1/500 e entrega o desenvolvimento a Viana de Lima enquanto colaborador em Portugal.

Creio que o resultado não poderia ser mais extraordinário. E foi extraordinário porque Viana de Lima segura toda a genialidade da ideia original, e como tal é também ele genial por isso mesmo. ( Quem projecta sabe o quão difícil é mantermos a frescura de um esquisso. )


Se juntarmos o engenheiro Madeira Costa para resolver a difícil ligeireza dos pilares e o desiner Daciano da Costa nos interior temos uma equipa verdadeiramence excepcional.
O projecto de arquitectura

O projecto nasceu no Funchal em 1966  por encomenda da família Barreto e conclui-se em 1976. Será conhecido como Carlton e hoje pertence ao portfolio do grupo Pestana.

Um bloco extenso e curvo de oito pisos permite que este através da sua delicadeza e comprimento se integre magnificamente no perfil do Funchal. Todos os quarto vêm o horizonte e o oceano que rodeia a Ilha da Madeira.

Este bloco parece abraçar cuidadosamente o casino que emerge dos jardins como uma referencia irónica à catedral de Brasília.

O terceiro corpo é o cine-teatro enterrado em forma de trapézio como tantos outros projectos de Niemeyer.

Tudo o resto é música sob a forma de rampas que cuidadosamente ligam fazem antever cada momento, cada espaço. A paisagem aparece e desaparece como um doce dança de paisagem e arquitectura.




As fotos em baixo são de Leonardo Finotti. Desfrutem.


Esquiço do Arquitecto Niemeyer


O Hotel integrado na paisagem

O abraço do Hotel ao jardim e as rampas de acesso

Os jardins do Hotel são um passeio para o Teatro e Casino.
A extraordinária relação do Hotel com a Natureza e o terreno.

2.06.2016

Casa no Porto

O Paradigma do Movimento Moderno Português

Julgo que nunca é demais sublinhar a singularidade e autenticidade do modernismo na arquitectura Portuguesa. E para falar disso nada melhor que o exemplo dado pelo arquiteto Celestino de Castro e de um dos seus projectos emblemáticos. Falaremos em seguida da Casa José Braga no Porto.
Mas antes convém descrever sumariamente o arquiteto Celestino de Castro. Termina o curso no final da segunda guerra, e começa a trabalhar nessa altura com uma forte influência das ideias provenientes do movimento moderno que só depois de terminado o curso conhece. Como o próprio dizia, só depois de terminados os estudos conheceu a fundo o trabalho de Le Corbusier. Celestino pertence também aquele grupo de arquitectos que defende uma arquitectura portuguesa aberta ao mundo, autêntica nas suas propostas e não pactua com a fantasia da "arquitectura à portuguesa" tão defendida no regime. Não é coincidência o facto de trabalhar no "Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa" pois no fundo pretendia que o modernismo das suas obras se apoiasse no mesmo pragmatismo e depuração formal da arquitetura popular e na sua relação com o lugar.

Modernidade e Tradição

No fundo, o aspeto mais entusiasmante do modernismo português é que é produzido por arquitetos que conheciam profundamente a arquitetura popular e trabalharam ativamente no seu conhecimento, documentação e divulgação. Este é o paradigma do Movimento Moderno Português.


Casa no Porto


A Casa José de Braga de Celestino de Castro é uma obra produzida ainda antes da clandestinidade ( resultante da sua militância no PCP) e data de 1950, sendo construída no Porto. No fundo traduz o seu compromisso com o emprego de formas contemporâneas, profundamente influenciadas por Le Corbusier mas também extraordinariamente adaptadas à contingência do lugar, do cliente e dos processos construtivos disponíveis. Ironia das ironias, no fundo, não há nada mais português que isto...


Arquiteto Celestino de Castro - Casa no Porto (José Braga)
Traseiras da Casa José Braga
Esquiços do Arquiteto Celestino de Castro

Fachada presente no Projeto de Arquitetura

Plantas da Casa no Porto de Celestino de Castro

12.28.2015

A casa de luxo


Faz já muitos anos que vi pela primeira vez uma obra de Rudolph Shindler. Situa-se na Kigns Road famosa via no estado da Califórnia e foi construída em 1922. Frequentada por John Cage, Frank Lloyd Wright, Edward Weston, reunia nela o ambiente cultural vanguardista da sociedade californiana.
Mas curiosamente ou não, ela foi efectivamente desenhada para duas famílias, a famíla Shindler e a família Chace, mas com vista a uma profunda independência para as quatro pessoas que compunham os dois casais. No fundo, Schindler concebe 5 estúdios para quatro pessoas e convidados.
 

Jardim da Casa Schindler



Quarto em forma de tenda na cobertura

Sala comum

Do ponto de vista da estratégia concebem-se três casas em L que geram múltiplos pátios à sua volta. Cada L serve duas pessoas. As camas estão na cobertura numa espécie de tenda. No rés-do-chão estão as salas, cozinhas e casas de banho de cada apartamento. No centro, uma grande sala para a vida social.

O espaço flui constantemente e desaparece por entre as árvores do jardim. Sentimos a opulência do vazio e parece que viajamos para Katsura. Só que aqui, nesta natureza e nestes espaços, o silêncio é composto por festas e discussões acaloradas pela sociedade boémia californiana.

Schindler é um visionário, na exacta medida em que define ainda hoje o standard daquilo que viria a significar a vivência da casa de luxo. E define-a não só para a Califórnia como para o mundo através de reproduções, interpretações e adulterações constantes de Hollywood.

Schindler é ao mesmo tempo um conservador pois resiste a industrializar a arquitectura, e mantém-se no mundo do artesanato. Decisão essa que lhe valeria uma disputa com Neutra ( Mas isso falaremos um outro dia...) 




Cozinha
Lareira numa das salas
 
Mas o que é então o luxo? 

O luxo são 330m2 de construção? O luxo é um jardim de 1900m2? O luxo são os materiais? É a madeira de sequóia? São os tecidos de algodão e seda? É um quarto na cobertura com vista para as estrelas? É viver com os amigos numa organização tipo república académica? É ter como amigos os maiores vultos da cultura do nosso século?
Sinceramente, parece-me que sim. O luxo é tudo isto. E creio que não é mesmo fácil fazer algo tão luxuoso.


9.22.2015

Arquitecto João Rocha

João Álvaro Rocha, o arquitecto do Porto

Tenho uma certa dificuldade em falar de um arquitecto que conheci pessoalmente e que foi meu professor, meu patrão e também meu amigo. Contudo, não seria justo se não referisse as excepcionais qualidades deste verdadeiro arquitecto do Porto de nome João Álvaro Rocha. Trata-se de um criador de uma arquitectura verdadeiramente moderna e enormemente contemporânea.
Este arquiteto possui uma qualidade que nunca encontrei na mesma quantidade em mais nenhum outro: o rigor. João Rocha trabalhava obsessivamente o detalhe e o conceito. E trabalhava-o no sentido de procurar a obra perfeita. E na realidade não só a procurava como a encontrava.
Cada gesto, cada proporção, cada alinhamento, cada material, era proposto no sentido de fortalecer o conceito formal da proposto e atingir uma serinidade que só encontramos nos grandes mestres.
O complexo de habitação social em Penela da sua autoria é um exemplo perfeito a este nível. Uma só janela, uma só solução construtiva e uma exuberante diversidade formal que se relaciona e se integra de modo cuidado com toda a topografia existente e a morfologia da ocupação do território envolvente.
Quando caminhamos no PER de habitação social de Penela sentimos que tudo resulta de um trabalho, de uma pergunta ou de um argumento. Quando passeamos no jardim, olhamos a varanda ou a entrada, encontramos uma razão de ser em cada torção, cada cor, cada pormenor. E só podia ser assim...

Habitação social em Penela

Habitação Social em Penela














Jardim Exterior


Varanda
Entrada

2.16.2015

O arquitecto no Porto - Júlio de Brito

Creio que é altura de fazer uma justa homenagem a um grande arquitecto do Porto. O destino acabou por me fazer cruzar com um dos seus projectos e creio que é mais que justo falar aqui deste enorme vulto da cultura portuguesa. Refiro-me a Júlio de Brito, grande impulsionador do modernismo em Portugal e particularmente no Porto.
O Porto foi durante o século XX um espaço de liberdade estética como não havia em mais nenhum sítio de Portugal continental. Mas essa liberdade era conquistada todos os dias pelos arquitectos. Júlio de Brito foi um desses heróis silenciosos. Introduziu a arquitectura moderna no quotidiano dos portugueses e portuenses e adaptava-a à realidade social e constructiva existente. asua cultura erudita permitia também que a fundisse com outros movimentos estéticos de vanguarda do século XX como a "art déco".
Encontramos obras da sua autoria como o Coliseu do Porto, o teatro Rivoli, a Junta de freguesia de Cedofeita, o café Aviz, e outros tantos.
A utopia foi recentemente contratada para a reabilitação de um edifício da autoria deste arquitecto do Porto, e quero aqui deixar claro que respeitaremos integralmente esta herança de enorme valor artístico, arquitectónico e porque não, político.
Em baixo fica aqui uma pequena amostra do seu trabalho no teatro Rivoli do Porto, obra essa que sofreu recentemente a excelente intervenção do arquitecto Pedro Ramalho.
O modernismo do Porto foi e continua a ser resultante da sua sociedade. Cabe-nos a todos defender esse património e divulgá-lo ao máximo.

Teatro Rivoli do arquitecto do Porto Júlio de Brito

Fachada lateral do Rivoli - arquitecto portuense Júlio de Brito

Interior do Rivoli - arquitectos Ramalho e anteriormente Brito