4.24.2016

Hotel dos Arquitectos Niemeyer e Lima


É muito provavelmente o Hotel em Portugal com o projecto de arquitectura mais detalhado e concebido não para ser a imagem de uma marca mas para se integrar num local e fazer desfrutar todos os que o percorrem.

Sim,  um hotel cuja qualidade essencial é a própria natureza do lugar e a arquitectura por si própria parece algo de impensável num tempo dominado pelo "branding" que torna tudo homogéneo.

O papel dos arquitectos ao desenhar o Hotel

O mais curioso neste Hotel é que este resultado extraordinário é concebido por dois arquitectos amigos de países diferentes. Um é o arquitecto Oscar Niemeyer do Brasil e o outro é Viana de Lina de Portugal. O primeiro é famoso internacionalmente e é convidado pela Família Barreto para realizar o projecto.
Concebe o estudo prévio à escala 1/500 e entrega o desenvolvimento a Viana de Lima enquanto colaborador em Portugal.

Creio que o resultado não poderia ser mais extraordinário. E foi extraordinário porque Viana de Lima segura toda a genialidade da ideia original, e como tal é também ele genial por isso mesmo. ( Quem projecta sabe o quão difícil é mantermos a frescura de um esquisso. )


Se juntarmos o engenheiro Madeira Costa para resolver a difícil ligeireza dos pilares e o desiner Daciano da Costa nos interior temos uma equipa verdadeiramence excepcional.
O projecto de arquitectura

O projecto nasceu no Funchal em 1966  por encomenda da família Barreto e conclui-se em 1976. Será conhecido como Carlton e hoje pertence ao portfolio do grupo Pestana.

Um bloco extenso e curvo de oito pisos permite que este através da sua delicadeza e comprimento se integre magnificamente no perfil do Funchal. Todos os quarto vêm o horizonte e o oceano que rodeia a Ilha da Madeira.

Este bloco parece abraçar cuidadosamente o casino que emerge dos jardins como uma referencia irónica à catedral de Brasília.

O terceiro corpo é o cine-teatro enterrado em forma de trapézio como tantos outros projectos de Niemeyer.

Tudo o resto é música sob a forma de rampas que cuidadosamente ligam fazem antever cada momento, cada espaço. A paisagem aparece e desaparece como um doce dança de paisagem e arquitectura.




As fotos em baixo são de Leonardo Finotti. Desfrutem.


Esquiço do Arquitecto Niemeyer


O Hotel integrado na paisagem

O abraço do Hotel ao jardim e as rampas de acesso

Os jardins do Hotel são um passeio para o Teatro e Casino.
A extraordinária relação do Hotel com a Natureza e o terreno.

2.06.2016

Casa no Porto

O Paradigma do Movimento Moderno Português

Julgo que nunca é demais sublinhar a singularidade e autenticidade do modernismo na arquitectura Portuguesa. E para falar disso nada melhor que o exemplo dado pelo arquiteto Celestino de Castro e de um dos seus projectos emblemáticos. Falaremos em seguida da Casa José Braga no Porto.
Mas antes convém descrever sumariamente o arquiteto Celestino de Castro. Termina o curso no final da segunda guerra, e começa a trabalhar nessa altura com uma forte influência das ideias provenientes do movimento moderno que só depois de terminado o curso conhece. Como o próprio dizia, só depois de terminados os estudos conheceu a fundo o trabalho de Le Corbusier. Celestino pertence também aquele grupo de arquitectos que defende uma arquitectura portuguesa aberta ao mundo, autêntica nas suas propostas e não pactua com a fantasia da "arquitectura à portuguesa" tão defendida no regime. Não é coincidência o facto de trabalhar no "Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa" pois no fundo pretendia que o modernismo das suas obras se apoiasse no mesmo pragmatismo e depuração formal da arquitetura popular e na sua relação com o lugar.

Modernidade e Tradição

No fundo, o aspeto mais entusiasmante do modernismo português é que é produzido por arquitetos que conheciam profundamente a arquitetura popular e trabalharam ativamente no seu conhecimento, documentação e divulgação. Este é o paradigma do Movimento Moderno Português.


Casa no Porto


A Casa José de Braga de Celestino de Castro é uma obra produzida ainda antes da clandestinidade ( resultante da sua militância no PCP) e data de 1950, sendo construída no Porto. No fundo traduz o seu compromisso com o emprego de formas contemporâneas, profundamente influenciadas por Le Corbusier mas também extraordinariamente adaptadas à contingência do lugar, do cliente e dos processos construtivos disponíveis. Ironia das ironias, no fundo, não há nada mais português que isto...


Arquiteto Celestino de Castro - Casa no Porto (José Braga)
Traseiras da Casa José Braga
Esquiços do Arquiteto Celestino de Castro

Fachada presente no Projeto de Arquitetura

Plantas da Casa no Porto de Celestino de Castro

12.28.2015

A casa de luxo


Faz já muitos anos que vi pela primeira vez uma obra de Rudolph Shindler. Situa-se na Kigns Road famosa via no estado da Califórnia e foi construída em 1922. Frequentada por John Cage, Frank Lloyd Wright, Edward Weston, reunia nela o ambiente cultural vanguardista da sociedade californiana.
Mas curiosamente ou não, ela foi efectivamente desenhada para duas famílias, a famíla Shindler e a família Chace, mas com vista a uma profunda independência para as quatro pessoas que compunham os dois casais. No fundo, Schindler concebe 5 estúdios para quatro pessoas e convidados.
 

Jardim da Casa Schindler



Quarto em forma de tenda na cobertura

Sala comum

Do ponto de vista da estratégia concebem-se três casas em L que geram múltiplos pátios à sua volta. Cada L serve duas pessoas. As camas estão na cobertura numa espécie de tenda. No rés-do-chão estão as salas, cozinhas e casas de banho de cada apartamento. No centro, uma grande sala para a vida social.

O espaço flui constantemente e desaparece por entre as árvores do jardim. Sentimos a opulência do vazio e parece que viajamos para Katsura. Só que aqui, nesta natureza e nestes espaços, o silêncio é composto por festas e discussões acaloradas pela sociedade boémia californiana.

Schindler é um visionário, na exacta medida em que define ainda hoje o standard daquilo que viria a significar a vivência da casa de luxo. E define-a não só para a Califórnia como para o mundo através de reproduções, interpretações e adulterações constantes de Hollywood.

Schindler é ao mesmo tempo um conservador pois resiste a industrializar a arquitectura, e mantém-se no mundo do artesanato. Decisão essa que lhe valeria uma disputa com Neutra ( Mas isso falaremos um outro dia...) 




Cozinha
Lareira numa das salas
 
Mas o que é então o luxo? 

O luxo são 330m2 de construção? O luxo é um jardim de 1900m2? O luxo são os materiais? É a madeira de sequóia? São os tecidos de algodão e seda? É um quarto na cobertura com vista para as estrelas? É viver com os amigos numa organização tipo república académica? É ter como amigos os maiores vultos da cultura do nosso século?
Sinceramente, parece-me que sim. O luxo é tudo isto. E creio que não é mesmo fácil fazer algo tão luxuoso.


9.22.2015

Arquitecto João Rocha

João Álvaro Rocha, o arquitecto do Porto

Tenho uma certa dificuldade em falar de um arquitecto que conheci pessoalmente e que foi meu professor, meu patrão e também meu amigo. Contudo, não seria justo se não referisse as excepcionais qualidades deste verdadeiro arquitecto do Porto de nome João Álvaro Rocha. Trata-se de um criador de uma arquitectura verdadeiramente moderna e enormemente contemporânea.
Este arquiteto possui uma qualidade que nunca encontrei na mesma quantidade em mais nenhum outro: o rigor. João Rocha trabalhava obsessivamente o detalhe e o conceito. E trabalhava-o no sentido de procurar a obra perfeita. E na realidade não só a procurava como a encontrava.
Cada gesto, cada proporção, cada alinhamento, cada material, era proposto no sentido de fortalecer o conceito formal da proposto e atingir uma serinidade que só encontramos nos grandes mestres.
O complexo de habitação social em Penela da sua autoria é um exemplo perfeito a este nível. Uma só janela, uma só solução construtiva e uma exuberante diversidade formal que se relaciona e se integra de modo cuidado com toda a topografia existente e a morfologia da ocupação do território envolvente.
Quando caminhamos no PER de habitação social de Penela sentimos que tudo resulta de um trabalho, de uma pergunta ou de um argumento. Quando passeamos no jardim, olhamos a varanda ou a entrada, encontramos uma razão de ser em cada torção, cada cor, cada pormenor. E só podia ser assim...

Habitação social em Penela

Habitação Social em Penela














Jardim Exterior


Varanda
Entrada

2.16.2015

O arquitecto no Porto - Júlio de Brito

Creio que é altura de fazer uma justa homenagem a um grande arquitecto do Porto. O destino acabou por me fazer cruzar com um dos seus projectos e creio que é mais que justo falar aqui deste enorme vulto da cultura portuguesa. Refiro-me a Júlio de Brito, grande impulsionador do modernismo em Portugal e particularmente no Porto.
O Porto foi durante o século XX um espaço de liberdade estética como não havia em mais nenhum sítio de Portugal continental. Mas essa liberdade era conquistada todos os dias pelos arquitectos. Júlio de Brito foi um desses heróis silenciosos. Introduziu a arquitectura moderna no quotidiano dos portugueses e portuenses e adaptava-a à realidade social e constructiva existente. asua cultura erudita permitia também que a fundisse com outros movimentos estéticos de vanguarda do século XX como a "art déco".
Encontramos obras da sua autoria como o Coliseu do Porto, o teatro Rivoli, a Junta de freguesia de Cedofeita, o café Aviz, e outros tantos.
A utopia foi recentemente contratada para a reabilitação de um edifício da autoria deste arquitecto do Porto, e quero aqui deixar claro que respeitaremos integralmente esta herança de enorme valor artístico, arquitectónico e porque não, político.
Em baixo fica aqui uma pequena amostra do seu trabalho no teatro Rivoli do Porto, obra essa que sofreu recentemente a excelente intervenção do arquitecto Pedro Ramalho.
O modernismo do Porto foi e continua a ser resultante da sua sociedade. Cabe-nos a todos defender esse património e divulgá-lo ao máximo.

Teatro Rivoli do arquitecto do Porto Júlio de Brito

Fachada lateral do Rivoli - arquitecto portuense Júlio de Brito

Interior do Rivoli - arquitectos Ramalho e anteriormente Brito

3.11.2014

A residência senior Paul Poiret

Robert Mallet-Stevens é um arquitecto francês bastante esquecido pela história da arquitectura moderna. É todavia um mestre precoce do modernismo  e de toda a imagética industrial. Consegue obras bastante importantes ainda antes de Le corbusier e contém uma audácia que ultrapassa o seu velho mestre Perret.

A casa moderna Paul Poiret espelha bem o seu processo criativo. O cliente já com idade avançada solicita um paraíso ao arquitecto. Concebida como uma casa pátio do ponto de vista da tipologia, ela abre as fachadas exteriores do U para a paisagem a partir do ponto mais alto. O terreno escolhido a dedo pelo costureiro Poiret é assim trabalhado por Mallet Stevens enquanto icone do imaginário modernista. Percorrer a casa Paul Poiret é percorrer um navio transatlântico modernista, quer nos seus espaços, quer nas suas formas. A sala surge perante a paisagem como uma proa e o pátio como um convés. as janelas circulares da circulação fazem-nos sentir a existência de um casco e as suas cores brancas a limpeza e a claridade dos edifícios da ponte.

A casa sofreu recentemente algumas intervenções mas muito resta ainda por fazer. No momento da construção estávamos em 1921 e o arquitecto francês Mallet Stevens presenteava-nos com algo de profundamente inovador!
Ironicamente ou propositadamente é a residência que o costureiro Paul Poiret escolheu precisamente para passar a sua reforma.


Fachada lateral lembra-nos uma ponte de navio.

O exterior da sala como se fosse uma proa.

A escada faz-nos lembrar as escadas de acostagem.

A residência senior tem a simplicidade de um navio.

O pátio como convés.





Pé direito duplo da sala modernista.









3.30.2013

Arquiteto Ramalho

Um dos arquitetos portugueses mais extraordinários que já conheci foi o arquiteto Raul Chorão Ramalho. A sua obra está ainda pouco publicada e tem ainda uma herança enorme na arquitetura portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana e macaense. Sim, este arquiteto tem obra em praticamente todo o mundo que fala Português e uma obra que é uma das mais sólidas de todo o movimento moderno. A arquitetura moderna portuguesa e a arquitetura moderna brasileira deve assim muito a Raul Chorão Ramalho. A sua obra é um compromisso claro com a modernidade, a funcionalidade, a relação da obra com o lugar e o clima e uma tentativa de ir sempre mais além.
Atentemos na embaixada de Portugal do Brasil, obra realizada em 1973 e que revela a vontade do arquiteto português em afirma a estrutura de betão armado em estreita relação com o tratamento dos espaços exteriores, das esculturas e painéis que envolvem o edifício e da funcionalidade e carácter simbólico que uma embaixada deve possuir. Chamo ainda a atenção para outro aspecto da obra deste arquiteto que é o carácter horizontal e minimal desta obra que nos remonta para a essencia da arquitetura portuguesa, essa arquitetura chã que ele tão bem estudou aquando da sua formação na escola do Porto durante os anos quarenta. Em Brasília, casa dos grandes mestres brasileiros, a arquitetura popular chã portuguesa torna-se agora moderna e erudita...

P.S.: Quando hoje trabalho para o Brasil no escritório da Utopia é sempre bom ter o trabalho deste velho mestre por referência. Por tudo isto obrigado arquiteto Ramalho....

Arquiteto Português Raul Chorão Ramalho em Brasília - 1973



Arquiteto Raul Chorão Ramalho Embaixada de Portugal - Brasil

Arquiteto portugês no Brasil - Ramalho 1973