6.11.2026

A casa passiva frente ao mar de Paul Rudolph

Paul Rudolph é filho de um pastor metodista do Kentucky e nasce no longínquo ano de 1918. 
Estuda em Harvard com Walter Gropius e é colega de Pei e Philip Johnson. Rudolph vai se um dos grandes maestros da chamada escola de Sarasota. A sua obra é extremamente complexa uma vez que os primeiros trabalhos transparecem uma modernidade minimal, mas será a complexidade das formas brutalistas que o tornarão famoso.

A casa Burnette é um dos exemplos mais deliciosos da sua arquitectura. Infelizmente foi demolida para dar lugar a uma habitação de muito inferior qualidade, à semelhança de tantas outras no mesmo bairro da cidade de Sarasota. Localizada junto ao mar e com acesso de barco e por carro, a casa é um exemplo maravilhoso de arquitetura passiva. A indisponibilidade de ar condicionado em 1949 tornava os arquitectos engenhosos fazendo uso do sombreamento e da ventilação cruzada. Aproveitava ainda a brisa marítima e fazia-a percorrer toda a casa. As janelas de correr do chão ao teto permitiam uma ventilação e arrefecimento imediato de todo o espaço.

A casa é extremamente simples e linear. Contudo, um patio permite usufruir do espaço sem vento e sombrear o caminho desde a casa até à garagem.
A casa é extremamente simples. Sala de estar e jantar estão ao meio com lareira central. A cozinha, lavandaria e patio de secagem de roupa estão numa ponta. Na ponta oposta estão 3 quartos, havendo um principal com casa de banho privativa e e os outros dois são acedidos por um pequeno jardim interior e partilham uma casa de banho.

Esta casa é assim profundamente atual, quer no uso depurado do minimalismo e simplicidade, quer na funcionalidade e eficiência energética. No fundo a arquitectura passiva já tinha sido inventada antes de lhe chamarmos esse nome.  Até porque, mesmo demolida, a boa arquitetura é um fruto das ideias e como tal viverá eternamente na nossa memória.

As imagens em baixo foram obtidas do Paul Rudolph Institute for modern architecture e foram coloridas usando o software de inteligência artificial imgupscaler.



Jardim voltado para o mar e para o cais


O acesso automóvel desde o bairro

Detalhe da consola com escada ( imagem colorida original sem IA)

Sala de jantar ( imagem colorida original sem cores IA)

Sala de estar e jantar com lareira central

Garagem e acesso pelo pátio

Detalhe da fachada e do acesso à cobertura
 com o mar ao fundo

Planta de Implantação

Axonometria à boa maneira da Bauhaus

Planta do rés do chão









 

5.11.2025

A Casa Engle e o modernismo escultural de Robert Whitton


Robert Whitton é um caso extraordinário de um arquiteto muito pouco conhecido, mas cuja qualidade dos projetos de arquitetura se mantém intacta meio século depois. É importante referir que não tem formação académica e que isso não o impediu de ver a sua obra publicada, maioritariamente casas e mobiliário nas mais importantes publicações periódicas de arquitetura dos anos 60 e 70, americanas e europeias.

Casa Engle de Robert Whitton

Interior da Casa Engle

No âmago de Boxborough, Massachusetts, entre 1968 e 1972, Robert Whitton concebeu a Casa Engle, uma residência que transcende a mera função habitacional para se afirmar como uma escultura habitada. Este projeto, embora discreto na sua divulgação, é uma ode ao modernismo escultural, onde a arquitetura se funde com a paisagem de forma quase orgânica.

A casa como uma escultura

Os terraços abertos à paisagem

Os volumes sobrepoêm-se como uma escultura

Uma rampa produz a entrada ao modo modernista

A luz é captada para o interior com cuidado

A planta em "T" da casa não é um capricho formal, mas uma resposta sensível ao terreno, preservando a topografia e a vegetação existente. Os terraços que se desdobram ao longo da estrutura não são apenas extensões do espaço interior, mas plataformas que convidam à contemplação da natureza envolvente.

A sala de estar e jantar vista do mezanino

A sala de jantar e a varanda dos quartos

Os terraços são um prolongamento da sala

A lareira da sala num espaço rebaixado com vista para a escada

Os pé direito duplo sobre a zona de estar

O uso expressivo do betão, material predominante na construção, confere à casa uma presença escultórica, onde volumes e vazios dialogam com a luz e a sombra, criando uma atmosfera de introspeção e serenidade. A estética minimalista não é um fim em si mesma, mas um meio para realçar a pureza das formas e a honestidade dos materiais.

A Casa Engle foi reconhecida na publicação "Architectural Record Houses of 1974" e eternizada pelas lentes de Ezra Stoller, fotógrafo que soube captar a essência desta obra singular. Recentemente, a casa foi redescoberta e celebrada em projetos contemporâneos, como a colaboração entre a Zara e o artista Albert Florent, que a incluiu numa coleção dedicada a edifícios icónicos da arquitetura moderna.

Em suma, a Casa Engle é mais do que uma residência; é uma manifestação da arquitetura enquanto arte, um espaço onde habitar é também experienciar a escultura.

Quando no atelier trabalhamos nos projetos de casas, a técnica escultórica de Robert Whitton é frequentemente um tema.



12.26.2024

A casa térrea perfeita é a Habitação Miller de Eero Sarinen

A Casa Miller, localizada em Columbus, Indiana, é uma obra-prima da arquitetura moderna, concebida pelo renomado arquiteto Eero Saarinen em 1953 e pode ser considerada a casa térrea perfeita.
 Foi encomendada pelo industrial e filantropo J. Irwin Miller e sua esposa, Xenia Simons Miller, a residência destaca-se pela sua integração harmoniosa entre arquitetura, design de interiores e paisagismo. O projeto da casa reflete a colaboração de três grandes nomes do design do século XX: Eero Saarinen, responsável pela arquitetura; Alexander Girard, encarregado do design de interiores; e Dan Kiley, que concebeu os jardins circundantes. Esta parceria resultou numa residência unifamiliar de aproximadamente 635 metros quadrados, caracterizada por linhas limpas, uso extensivo de vidro e uma planta aberta que promove a fluidez entre os espaços. Um dos elementos mais emblemáticos da Casa Miller é o "conversation pit", uma área de estar rebaixada no centro da sala de estar, concebida para fomentar a interação social. Este espaço inovador tornou-se um ícone do design de meados do século e exemplifica a abordagem de Saarinen em criar ambientes funcionais e acolhedores. Outro aspeto excecional da casa é a forma como a luz entra em todos os espaços e dialoga com a estrutura de modo delicioso. Os interiores, desenhados por Alexander Girard, são notáveis pelo uso vibrante de cores e texturas, que contrastam com a sobriedade estrutural da casa. Girard incorporou uma variedade de têxteis e elementos decorativos que conferem calor e personalidade aos espaços, refletindo o gosto eclético dos proprietários. O paisagismo, a cargo de Dan Kiley, complementa a arquitetura com jardins geométricos que estabelecem uma relação harmoniosa entre o interior e o exterior. A disposição cuidadosa da vegetação e a criação de vistas enquadradas reforçam a sensação de continuidade entre os espaços habitáveis e a natureza circundante. A Casa Miller foi declarada Marco Histórico Nacional em 2000, reconhecendo a sua importância no panorama da arquitetura moderna americana. Atualmente, é propriedade da organização cultural Newfields e está aberta ao público para visitas guiadas, permitindo que entusiastas da arquitetura apreciem de perto esta obra singular.
Na realidade, sempre que projetamos uma das nossas casas no gabinete, esta casa de um piso é frequentemente tema de conversa em projeto pois é o protótipo da casa térrea perfeita.
 
Vista da casa térrea desde o jardim
Canto da casa térrea
Interior com piso rebaixado
Vista do jardim desde a sala
Vista da sala com a biblioteca e zona de musica

Estrutura com clarabóia













12.27.2023

O Projeto industrial da Hoechst no Porto

Corria o ano de 1965 e era construído no Porto um dos mais belos exemplos de arquitectura moderna industrial. Os seus autores são o arquiteto Benjamim do Carmo e Klaus Heufer.

Benjamim do Carmo foi aluno de Marques da Silva e Carlos Ramos na Escola de Belas Artes do Porto. Era um profundo entusiasta da arquitectura moderna e são várias as obras em que é co-autor com arquitectos como Agostinho Ricca. A sua obra é pouco conhecida e raramente estudada. Trabalhava maioritariamente na zona norte de Portugal.

Klaus Heufer é um arquitecto alemão nascido na região de Westfalia.  Combate na segunda guerra mundial enquanto piloto e é abatido e tratado por um hospital americano. Trabalha para estudar no pós-guerra e conclui a licenciatura em arquitectura. Trabalha com ínúmeros arquitectos e acaba por fixar-se na Venezuela.

O desafio de desenhar a sede da multinacional química Hoechst une os dois arquitectos. No fundo ambos tinham o amor pela arquitectura moderna. Heufer é trazido pela empresa e Carmo é o arquiteto com o conhecimento do Porto.


Vista aérea do edifício em 1965

O edifício em 1965

O edifício é concebido como sede de empresa e local de produção de corantes e pigmentos para a indústria têxtil, o edifício da antiga Hoechst portuguesa desenvolve-se no âmbito das premissas da arquitectura racional, unindo dois volumes em forma de T. 


O edifício Hoechst nos dias de hoje
 

O primeiro volume apresenta uma cortina de vidro, uniforme e sugestiva, atesta a pluralidade do programa, que distribui as áreas de escritório, laboratório químico de anilina, área de farmácia e dispensário médico em quatro pisos.


A pala de entrada

O segundo volume é destinado ao armazenamento de produtos, contando com plataforma de carga e descarga e áreas de pesagem. Este aspecto funcional é interrompido, no entanto, por uma série de detalhes que enriquecem formalmente o conjunto e lhe conferem plasticidade. Assim, extrai novas propostas criativas dos efeitos alternados de luz e sombra na fachada de vidro, da cobertura recortada que cobre a casa do guarda ao nível do solo, da vigorosa pala que marca a entrada do edifício, revestida de azulejo colorido ou, ainda, a obra plástica do pavimento exterior, um mosaico composto por grelhas.

A fachada vista de Sul

A fachada principal desde Norte

A beleza e leveza da modernidade pode ser percebida, sobretudo, no tratamento diferenciado do primeiro piso, tanto pelo revestimento cerâmico pigmentado, que forma um padrão, quanto pelo recuo do painel da fachada, que é separado de suas funções de suporte por meio de uma lacuna contínua que se estende além dos limites do próprio edifício.

O átrio de entrada e a escada solta

No interior, os espaços são luminosos, fluidos e brem-se para o exterior. É notável a simplicidade da escada de entrada.

A zona de entrada e o pilar da pala

No fundo, o edifício Hoechst é um exemplo perfeito de edifício administrativo e industrial em que a funcionalidade e o conforto andam a par. O imóvel está classificado e não pode hoje ser alterado. É património arquitectónico nacional dada a originalidade da obra.

Ainda hoje, sempre que no gabinete de arquitetura pensamos em projetos industriais temos sempre em mente este magnífico exemplo de arquitetura modernista. 







9.06.2022

Como fazer um Hotel Rural segundo o Arquiteto Rogério Ramos


Hotel Rural - Arquitecto Rogério Ramos

Na década de 50 três jovens arquitectos de nome João Archer de Carvalho, Manuel Nunes de Almeida e Rogério Ramos são contratados para desenhar um conjunto modernista em Trás-os-montes. Rogério Ramos ficará encarregue do desenho do Hotel ou Pousada no cimo de uma colina. No fundo o arquitecto o que nos deu foi uma lição de como fazer um hotel rural válida até aos dias de hoje. O arquitecto aponta os caminhos para desenhar um hotel rural de qualidade 

Entrada do Hotel Rural


 #1: Escolher o local Ideal 

O local perfeito para implantar uma pousada ou hotel rural é sempre discutível. Contudo, alguns valores são fundamentais. A ligação à natureza, as vistas desafogadas, e o silêncio são aspetos que todos apreciam. A nova pousada da EDP na aldeia do Picote em Miranda do Douro, foi o local escolhido para implantar o Hotel Rural mais inovador de Portugal. O arquitecto Rogério Ramos, inteligentemente decide colocá-lo no ponto mais alto.    

O projecto de arquitectura no topo do morro

#2: Contratar um arquiteto de qualidade

O arquiteto Rogério Ramos nasce em 1927 e termina o curso de Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes em 1953. Ainda estudante trabalha para Arménio Losa e Carlos Loureiro. Em 1954 é contratado pela EDP para elaborar vários projetos entre os quais a Pousada.  Em suma, a escolha da EDP foi direcionada para um arquiteto disponível para as novas ideias de modernidade e com uma formação sólida na conhecida Escola do Porto. Esta escolha viria a tornar-se essencial.

Projecto do Arquitecto Rogério Ramos


 #3 Qualidade nos jardins exteriores

A criação espaços exteriores com diferentes qualidades permite que distintas atividades tenham lugar. No hotel do Picote vemos o exempli de um pátio protegido do vento e devidamente sombreado pelos edifícios exteriores. Ao mesmo tempo o estacionamento é organizado só numa zona. Cada uma das zonas restantes possui vistas e enquadramento deslumbrantes. O jardim exterior é assim o motivo organizador de toda a arquitectura. 


Jardim do Hotel Rural do Picote


#4 Organização modernista 

A arquitectura modernista de inspiração minimalista foi o tema escolhido pelo arquitecto Rogério Ramos para organizar todo a pousada. E esta estratégia percorre desde o mobiliário até ao edifício. Não havia aqui nenhum palácio para restaurar e Rogério Ramos não abdica das suas convicções e realiza uma obra prima de simplicidade e beleza. 
O arquitecto ramos mostra como o uso tradicional da madeira num hotel rural pode ser combinado com a utilização de materiais materiais modernistas como o betão armado. Os tecidos de algodão e pele natural do mobiliário mostram no fundo como os materiais naturais são de uma beleza estonteante.


Lareira da Sala de Estar


#5 Um edifício funcional

O hotel possui um corpo todo dedicado aos serviços e funcionários com acesso independente. Um das alas serve para acesso de viaturas e pessoas. O restante da planta do rés-do-chão dedica-se aos espaços comuns como restaurante e sala de jogos. Em cima estão os dois pisos de quartos. Em suma, a planta do hotel rural é de uma funcionalidade perfeita.
Planta do Hotel Rural

#6  Salas de estar acolhedoras

As salas de estar de um Hotel Rural luminoso são sempre mais confortáveis. No caso do Hotel do Picote a luz e o mobiliário cuidado deram um ambiente sofisticado e elegante. 

Sala de estar do Hotel Rural



#7 Salas de jantar confortáveis

Para além das vistas a sala de jantar possui cadeiras desenhadas propositadamente para o espaço. As linhas curvas e elegantes contrastam com as linhas rectas e as janelas de chão ao tecto. 

Sala de Jantar do Hotel Rural

#8 Quartos inovadores

Os quartos têm uma iluminação embutida no teto, armários encastrados e mobiliário transformável. Os sofás podem ser camas e as paredes possuem painéis de correr. Tudo isto é absolutamente inovador para a época. 


Quartos do Hotel Rural do Picote



#9 Estacionamento eficiente

O estacionamento é confortável debaixo de arborização. As árvores de outras latitudes foram escolhidas pela elegância e pela capacidade de sombreamento no verão e luminosidade no inverno.



#10 Caminhadas e percursos

Percursos com lages de betão geométricas permitem-nos passear pelo jardim e contemplar a paisagem num miradouro deslumbrante. A geometria e a natureza encontram-se nestes percursos de cortar a respiração.

Percurso para o Miradouro do Hotel Rural

Miradouro do Hotel Rural


#11 Conforto Térmico

Para além do sistema de aquecimento central previsto para o Inverno o Hotel rural de Rogério Ramos tem um importante sistema de alpendres que permitem o sombreamento no Inverno. Nos anos 50, a arquitectura passiva era já dominada por este arquitecto modernista de modo extraordinário.

Alpendre da Entrada do Hotel rural

#12 Vontade de Voltar

O imóvel da Pousada foi classificado como património no século XXI e em 2011 foi restaurado pelos arquitectos Fernandes e Cannata. Este Hotel Rural ficará para sempre na memória de todos os arquitectos como um exemplo muito à frente do seu tempo. 
Em suma, mesmo hoje, quando desenhamos um Hotel e estudamos o programa de necessidades, este exemplo do arquitecto Ramos ficará para sempre como uma referência incontornável.





Pátio do Hotel Rural